O reflexo das histórias na personalidade da criança

A infância é um momento rico de descobertas e aprendizados. Saiba como as histórias e contos de fadas colaboram para a formação da personalidade da criança e o gerenciamento das emoções.

Dizem que os leitores do futuro começam sua formação durante a infância. Embora exista alguma verdade nessa frase, torna-se urgente reconhecer que as histórias escutadas durante a infância possuem um reflexo muito mais profundo do que apenas desenvolver hábitos futuros de leitura.

A ciência está interessada nas histórias

Essa visão, aliás, está ficando cada vez mais ultrapassada graças às inúmeras pesquisas, que investigam o papel das histórias durante os primeiros anos de vida. É o caso de um estudo publicado na revista Pediatrics, que observou diferentes manifestações no cérebro de crianças que ouviam histórias.

Esse estudo em específico registrou que, crianças que tinham maior contato com histórias, apresentaram uma ativação mais intensa nas áreas responsáveis pela integração multissensorial entre som e estímulo visual. Assim, é possível compreender que os reflexos das narrativas surgem ainda muito cedo no desenvolvimento intelectual dos pequenos.

Não por acaso é durante a infância que o cérebro passa por importantes transformações. Algumas delas acontecem exclusivamente entre um período crítico que vai dos 2 aos 4 anos, onde a criança precisa de experiências adequadas para melhor desenvolver seu intelecto e a própria personalidade.

E um desses estímulos é a linguagem, que oferece uma profusão de ensinamentos quando bem estruturada por meio das narrativas.

É o que defende o doutor em Linguística e mestre em Filosofia e Psicologia, Evelio Cabrejo Parra, colombiano radicado na França. Para ele a linguagem é a companheira mais importante dos seres humanos e essa relação começa desde o 4º mês de gestação, quando a audição se forma e consegue diferenciar os elementos acústicos ao redor da nova vida.

De fato, a linguagem é uma das competências naturais dos seres humanos. Segundo Parra, um bebê já nasce com grande sensibilidade à voz humana. Ao ouvir os sons, os pequenos instintivamente tentam conferir significados às coisas que os rodeiam.

Os sons, a linguagem e a construção do sujeito

Mas o que as histórias têm a ver com isso? Não basta falar com o bebê sobre qualquer assunto no dia a dia?

Ao ler histórias para as criança oferecemos possibilidades para que os pequenos experimentem ecos de sentimentos, que ainda não conseguem entender, mas que sentem com muita frequência.

Contar uma história, por exemplo, é um ato muito diferente de falar “Não faça isso” ou “Venha aqui”, expressões de ordem que não possuem expressividade e que, muitas vezes, a criança não tem bagagem para compreender e gerar uma resposta adequada. Daí a frustração do adulto, que não consegue a cooperação da criança.

É importante ressaltar que o vocabulário cotidiano é muito pobre para a real necessidade do bebê e assim, as histórias cumprem a tarefa de suprir essa lacuna no desenvolvimento infantil.

Os bebês, quando ouvintes das histórias, prestam atenção à voz humana, ao rosto, aos gestos e até mesmo ao olhar do adulto. Essa rica forma de comunicação, que explora vários estímulos, permite que o bebê entenda o mundo seguindo o próprio ritmo e base de conhecimentos. Diferente de quando o adulto tenta impôr sua bagagem cultural ao bebê, que pode não fazer o menor sentido.

Uma porta para o conhecimento interior

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Pode não parecer, mas durante a infância sofremos intensamente com conflitos internos. Ciúme, raiva e tristeza fazem parte da vida da criança, no entanto, o adulto não dá a devida atenção ou interpreta como as famosas “malcriações”.

Esse é o poder das histórias: Aos poucos permitem que a criança entenda o que sente e oferecem pequenos questionamentos daquilo que ainda é um mistério. O resultado é a melhora na comunicação com o adulto, que consegue obter a cooperação da criança no dia a dia, como na hora da soneca, ao escovar os dentes, ao se vestir para o colégio, ao dividir os brinquedos com o irmão, etc.

Portanto, a linguagem quando estruturada em textos literários e poéticos, torna-se uma rica fonte de conhecimento, mas que só pode ser acessada pelos bebês se nós contarmos essas histórias. O adulto, portanto, torna-se um meio de transmissão para que a criança entenda a si mesma. Daí nosso importante papel na educação infantil: oferecer possibilidades para que os pequenos entendam o mundo no próprio ritmo.

É por meio das histórias que capturamos o significado e a harmonia do mundo, e guardamos tudo em nosso interior, sendo esta a base para nossa formação psicológica e social. Assim, a linguagem torna-se a matriz simbólica na construção da personalidade e dos sentimentos de todos os seres humanos.

Leia para uma criança e contribua para a construção de um ser humano saudável. Como escolher os livros mais adequados? Como o adulto deve se comportar? Esse será assunto para um próximo texto aqui no blog.

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A entrevista completa com Evelio Cabrejo Parra você encontra na revista Nova Escola.

 

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