Análise do discurso “Eu tenho um sonho” de Martin Luther King

 

Na década de 60, o pastor e ativista Martin Luther King ficou conhecido no mundo inteiro ao proferir o seu discurso conhecido como I Have a Dream ou no bom português “Eu tenho um sonho”.

Luther King lutou intensamente pelos negros nos Estados Unidos, que tinham direitos básicos ignorados na época, como o uso de espaço públicos e privados, muito embora a abolição da escravatura tenha acontecido formalmente nos Estados Unidos ainda durante o século XIX.

O blog da Aegis fez um estudo deste grande discurso elencando 5 pontos importantes à luz da Oratória. Conheça abaixo alguns motivos que tornaram essa apresentação tão memorável.

1) Promover o que é bom

Promover “o que é bom” é um dos primeiros pontos analisados inconscientemente pelo espectador para aceitar ou não uma proposta. As pessoas naturalmente se orientam por aquilo que assegura o melhor para o bem comum e não somente para o benefício individual.

Por isso, Luther King desenvolveu um discurso tão grandioso. Ele não promoveu somente aquilo que é bom ao povo negro, que é o verdadeiro público-alvo de suas palavras, mas fundamentou seu discurso em ideias abrangentes para todos os seres humanos – sejam negros, brancos, judeus, etc – com palavras de fraternidade, justiça e comunhão.

2) Ter uma proposta central clara

Imagine o orador como um guia de viagem e os passageiros como os seus ouvintes. Ter uma proposta central clara significa que o guia precisa ser capaz de percorrer diversos caminhos sem se perder.

A diversidade nesses caminhos é importante para enriquecer a experiência dos ouvintes com exemplos práticos, informações relevantes, analogias, etc. Porém, um bom orador não deve fugir do caminho central, que é o motivo pelo qual as pessoas realmente estão lhe escutando.

A proposta central é o pano de fundo, que precisa inspirar o orador em todos os momentos de uma apresentação. Leia abaixo o discurso de Luther King na íntegra. Você é capaz de explicar o discurso em apenas 5 palavras? Se sim, você encontrou a proposta central.

3) Embasar

O embasamento ajuda a dar materialidade ao discurso. Para convencer é necessário utilizar circunstâncias válidas e comprováveis em relação à proposta apresentada.

Isso pode ser feito de várias formas, não havendo uma receita pronta. Pode ser uma experiência consolidada, uma pesquisa na área ou a citação de um especialista.

Luther King pautou seu discurso em fatos e datas históricas, que portanto, são incontestáveis. O que está gravado na história normalmente oferece legitimidade ao que está sendo discutido.

4) Transmitir sentimentos

Uma palestra não é feita somente de conteúdo estruturado e intelectual, como tratado neste artigo. É fundamental que o orador imprima sentimento ao expor suas ideias, pois a emoção é ingrediente fundamental na criação da conexão entre seu público e suas convicções.

O sentimento inserido na oratória é algo sutil, sem exagero ou dramaticidade – a não ser que seja intencional. Saber transmitir sentimentos é dar personalidade ao discurso. Esse é provavelmente o elemento mais marcante do discurso de Luther King.

5) Facilitar a compreensão

Um bom orador facilita a compreensão de seus ouvintes a respeito dos temas. Isso não significa trabalhar com uma linguagem pobre, mas ter uma capacidade importante, que é a de facilitar a absorção do conteúdo.

Um dos recursos mais importantes para isso são as analogias, encontradas naturalmente nas correspondências entre as situações da vida cotidiana. Observe que Luther King utilizou diversas comparações para sustentar seu discurso. Uma delas, encontrada no início da apresentação é sobre o povo negro e uma dívida da qual o país está inadimplente.

E você é capaz de encontrar mais elementos que tornam este um bom discurso? Escreva abaixo nos comentários e ajude a colaborar com nossa análise!

Confira a transcrição do discurso:

 

Voltem para o Mississipi, voltem para o Alabama, voltem para a Carolina do Sul, voltem para a Georgia, voltem para a Louisiana, voltem para as ruas sujas e guetos de nossas cidades do norte, sabendo que de alguma maneira essa situação pode e será mudada.

Não se deixe cair no vale do desespero!

 

Eu digo a vocês hoje, meus amigos. Embora nós enfrentemos as dificuldades de hoje e amanhã, eu ainda tenho um sonho.
É um sonho profundamente enraizado no sonho americano. Eu tenho um sonho que um dia essa nação se levantará e viverá o verdadeiro significado de sua crença. Nós celebraremos essas verdade, e elas serão claras para todos que os homens são criados iguais.

 

Eu tenho um sonho que um dia nas colinas vermelhas da Georgia os descendentes de escravos e os descendentes de donos de escravos poderão se sentar junto à mesa da fraternidade.

 

Eu tenho um sonho de que um dia, até mesmo no estado do Mississipi, um estado que transpira com o calor da injustiça, que transpira com o calor da opressão, será transformado em um oásis de liberdade e justiça. Eu tenho um sonho de que minhas quatro crianças um dia viverão em uma nação em que serão julgadas não pela cor de sua pele, mas pelo conteúdo de seu caráter. Eu tenho um sonho hoje!

 

Eu tenho um sonho de que um dia, no Alabama, com seus racistas malignos, com seu governador que tem os lábios gotejando palavras de negação e intervenção; nesse justo dia , no Alabama, meninos negros e meninas negras poderão unir as mãos com meninos brancos e meninas brancas como irmãos e irmãs. Eu tenho um sonho hoje!

Eu tenho um sonho de que um dia todo o vale será exaltado, e todas as montanhas e colinas virão abaixo, os lugares ásperos serão aplainados e os lugares tortuosos serão endireitados e a glória do senhor será revelada e toda a carne estará junta!

 

Esta é a nossa esperança. Esta é a fé com que regressarei para a Carolina do Sul. Com esta fé poderemos cortar da montanha do desespero uma pedra de esperança. Com esta fé nós poderemos transformar as discórdias estridentes de nossa nação em uma bela sinfonia de fraternidade.
Com esta fé, nós poderemos trabalhar juntos, rezar juntos, lutar juntos, irmos para a cadeia juntos,  lutar pela liberdade juntos e quem sabe um dia nós seremos livres. Este será o dia quando todas as crianças de deus poderão cantar com um novo significado.

 

“Meu país
Doce terra de liberdade,
Eu te canto.

Terra aonde meus pais morreram,
Terra do orgulho dos peregrinos.
De qualquer lado da montanha
Ouço o sino da liberdade!”

E se a América é uma grande nação, isso tem de se tornar verdadeiro.
E assim, ouvirei o sino da liberdade no extraordinário topo da montanha de New Hampshire.
Ouvirei o sino tocar no topo das poderosas montanhas de Nova York.
Ouvirei o sino da liberdade nos engrandecidos Alleghenies da Pensilvania.
Ouvirei o sino da liberdade nas montanhas cobertas de neve do Colorado.
Ouvirei o sino tocar nas ladeiras curvas da California.
Mas não é só isso: ouvirei o sino da liberdade na montanha de pedra da Georgia.
Ouvirei o sino da liberdade na montanha de vigilância no Tenessee.
Ouvirei o sino tocar em cada colina do Mississipi.

Em todas as montanhas ouviremos o sino da liberdade tocar, e quando isso acontecer, quando nós permitirmos o sino da liberdade soar, quando nós deixarmos ele soar em toda a moradia, e todo vilarejo, em cada estado, em cada cidade, nós poderemos acelerar até aquele dia em que todas as crianças de Deus, homens brancos e homens negros,  judeus e gentios, protestantes e católicos, poderão unir suas mãos e cantar nas palavras do velho negro espiritual:

“Livre enfim, livre enfim.”

 

Agradeço ao Deus todo poderoso! Somos livres!


Texto escrito pelo professor Tuiavii Rolim do curso Oratória e a Arte de Convencer

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